{"id":1922,"date":"2017-03-10T19:00:57","date_gmt":"2017-03-10T22:00:57","guid":{"rendered":"http:\/\/judonacional.com\/?p=1922"},"modified":"2017-03-10T19:00:57","modified_gmt":"2017-03-10T22:00:57","slug":"o-judo-brasileiro-perde-seu-maior-historiador","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/judonacional.com\/?p=1922","title":{"rendered":"O jud\u00f4 brasileiro perde seu maior historiador"},"content":{"rendered":"<h4>Morre o professor kodansha Stanlei Virg\u00edlio, autor do maior acervo liter\u00e1rio sobre o jud\u00f4 brasileiro.<\/h4>\n<p><span class=\"subtexto-texto\">Nascido em Rio Claro (SP), professor Stanley registrou a trajet\u00f3ria dos principais judocas de eixo Rio\/S\u00e3o Paulo<\/span><\/p>\n<p>Autor de oito livros sobre t\u00e9cnicas, biografias e hist\u00f3rias da modalidade, o ex-delegado regional da Federa\u00e7\u00e3o Paulista de Jud\u00f4, Stanlei Virg\u00edlio faleceu aos 85 anos e deixou um registro liter\u00e1rio gigantesco sobre a hist\u00f3ria e a biografia dos principais personagens do jud\u00f4 paulista e fluminense.<\/p>\n<p>Dono de um comportamento paradoxal, sensei Stanley era austero em seus compromissos, mas totalmente despojado no que diz respeito \u00e0 vaidade pessoal. Contudo, a sua grande magoa foi n\u00e3o ter a gradua\u00e7\u00e3o reconhecida pela Federa\u00e7\u00e3o Paulista de Jud\u00f4, onde alcan\u00e7ou o 6\u00ba dan, enquanto na Liga Paulista de Jud\u00f4 havia alcan\u00e7ado o 8\u00ba dan. Leia abaixo a entrevista concedida \u00e0 Revista Bud\u00f4, em 2016.<\/p>\n<p><strong>A paix\u00e3o pelo jud\u00f4<\/strong><\/p>\n<p><strong>Traduzida em livros<\/strong><\/p>\n<p><strong>Mais do que as competi\u00e7\u00f5es, a filosofia e a beleza dos movimentos\u00a0<\/strong><strong>fizeram Stanlei Virg\u00edlio apaixonar-se pelo jud\u00f4. Essa paix\u00e3o transformou-se em ensinamentos para os alunos de sua academia e em oito livros sobre\u00a0<\/strong><strong>t\u00e9cnicas, biografias e hist\u00f3rias da modalidade.<\/strong><\/p>\n<p>No come\u00e7o dos anos 1950, pouca gente sabia o que era na realidade o jud\u00f4, visto por alguns como uma luta mortal praticada pelos japoneses. Mas Stanlei Virg\u00edlio, chegado havia pouco a Assis para iniciar sua carreira profissional, enxergou al\u00e9m dos golpes e combates. Nascido em 31 de mar\u00e7o de 1932, em Rio Claro, ele havia passado por outras cidades do interior paulista, como Bebedouro e Jaboticabal, onde concluiu seus estudos na Escola de Agricultura em 1950, antes de chegar a Assis.<\/p>\n<p>Foi nessa cidade, onde iria trabalhar na Empresa de Mecaniza\u00e7\u00e3o Agr\u00edcola S.A., que fez o primeiro contato com o jud\u00f4 e teve as primeiras aulas com o professor Massao Kodama. Ao logo de sua vida, at\u00e9 por limita\u00e7\u00f5es impostas pelo trabalho, apresentou-se em muitas competi\u00e7\u00f5es e exibi\u00e7\u00f5es, mais por amor ao esporte do que em busca de grandes t\u00edtulos. Em 1987 fundou a Academia Stanlei de Jud\u00f4 e Gin\u00e1stica, em Campinas. A preocupa\u00e7\u00e3o em transmitir a seus alunos conceitos at\u00e9 ent\u00e3o pouco conhecidos levou-o a escrever um livro sobre t\u00e9cnicas e fundamentos do jud\u00f4. E n\u00e3o parou mais de escrever.<\/p>\n<p>Stanlei n\u00e3o tem d\u00favidas de que se tornou uma pessoa melhor, inclusive fisicamente, gra\u00e7as ao jud\u00f4. Por ele abandonou o futebol, o atletismo e o t\u00eanis de mesa. E se sente feliz porque o jud\u00f4 lhe deu tudo que queria da vida. Especialmente a possibilidade de construir sua academia, dentro dos par\u00e2metros que sempre sonhou, com um programa de ensino estudado, aperfei\u00e7oado e melhorado.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o significa que n\u00e3o tenha sofrido decep\u00e7\u00f5es. A maior delas, afirma, \u00e9 n\u00e3o ter seu trabalho e sua dedica\u00e7\u00e3o reconhecidos pela Federa\u00e7\u00e3o Paulista de Jud\u00f4, embora tenha contribu\u00eddo decididamente para a cria\u00e7\u00e3o da 15\u00aa DRH \u2013 Grande Campinas, da qual foi um dos comandantes. Do futuro, s\u00f3 teme que sua academia possa um dia deixar de existir. Conhe\u00e7a mais dessa personalidade marcante do jud\u00f4 paulista na entrevista a seguir.<\/p>\n<p><strong>Quantos livros escreveu at\u00e9 hoje?<\/strong><\/p>\n<p>Escrevi dez: <em>A arte do jud\u00f4<\/em>, <em>A arte e o ensino do jud\u00f4<\/em>, <em>Defesa pessoal<\/em>, <em>Golpes extra gokio<\/em>, <em>Jud\u00f4 Campinas \u2013 hist\u00f3ria e arte<\/em>, <em>Personagens e hist\u00f3rias do jud\u00f4 brasileiro<\/em>, <em>Conde Koma<\/em> e <em>Ne-waza<\/em>, todos sobre jud\u00f4, al\u00e9m de <em>Despertar da mecaniza\u00e7\u00e3o agr\u00edcola<\/em>\u00a0e <em>Uma vida, autobiografia<\/em>.<\/p>\n<p><strong>O que o motivou a escrever sobre jud\u00f4?<\/strong><\/p>\n<p>A escassez de literatura. Antes de 1980 eram rar\u00edssimos os livros sobre jud\u00f4, e a maioria era muito ruim.<\/p>\n<p><strong>Qual livro lhe deu mais prazer?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que o mais prazeroso foi o primeiro, porque n\u00e3o via a hora de ser publicado; os outros foram uma consequ\u00eancia, uma continuidade. Mas n\u00e3o se pode dizer que um \u00e9 melhor do que o outro. H\u00e1 uma sequ\u00eancia que come\u00e7a mostrando o que \u00e9 o jud\u00f4, para que um principiante entenda seus conceitos e n\u00e3o as t\u00e9cnicas. J\u00e1 para escrever <em>Os golpes extra gokio<\/em> pesquisei mais de 100 deles para escolher os que entrariam, e tive de trein\u00e1-los at\u00e9 a perfei\u00e7\u00e3o. Ensinei e fiz demonstra\u00e7\u00f5es desses golpes em v\u00e1rios lugares. Outro livro particularmente interessante \u00e9 o <em>Conde Koma<\/em>, que conta toda a hist\u00f3ria do jud\u00f4 desde o Jap\u00e3o at\u00e9 a entrada dele no Brasil, em 1915.<\/p>\n<p><strong>Qual biografia foi mais desafiadora?<\/strong><\/p>\n<p>A do Conde Koma, porque tive de viajar no tempo e no espa\u00e7o. N\u00e3o enfrentei apenas problemas financeiros, mas tive de ausentar-me de minha vida e enfrentar in\u00fameras adversidades para mapear a vida e os caminhos daquele pioneiro dos tatamis em nosso Pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Qual foi a entrevista mais emocionante que j\u00e1 fez?<\/strong><\/p>\n<p>Foi com o sensei Sadai Ishihara, na cidade de Assai, em 2001. A impress\u00e3o que me causou foi de desola\u00e7\u00e3o: um professor como ele, um nome que tem de ser lembrado para sempre pelo jud\u00f4 do Paran\u00e1, era uma figura pequena, sentadinha na soleira de uma porta toda quebrada. A academia, que fora referencial no Norte do Paran\u00e1, era s\u00f3 escombros. Na casa dele, de madeira toda desgastada, dona Ki\u00ea foi fazer um caf\u00e9 para a gente, insistindo em dizer que era brasileira, que os filhos s\u00e3o brasileiros, e que n\u00e3o lembrava mais nada do Jap\u00e3o. Esta foi a entrevista que realmente mais me comoveu. Vieram-me l\u00e1grimas de ver a situa\u00e7\u00e3o de um judoca que lutara diante do imperador do Jap\u00e3o, um privil\u00e9gio reservado aos melhores, agora velhinho, abandonado naquela cidade.<\/p>\n<p><strong>Os livros lhe proporcionaram ganho financeiro significativo?<\/strong><\/p>\n<p>Infelizmente, s\u00f3 tive preju\u00edzos. No livro do Conde Koma fiquei uma semana em Bel\u00e9m, viajando de \u00f4nibus por estradas de terra, com ajuda do presidente da federa\u00e7\u00e3o paraense da \u00e9poca. Depois de muito custo encontrei o japon\u00eas que precisava entrevistar, s\u00f3 que ele n\u00e3o falava portugu\u00eas. A mulher dele traduziu, mas n\u00e3o resolveu; foi muito esfor\u00e7o para nada. Fui a Manaus tamb\u00e9m pesquisar sobre ele. S\u00f3 que naquele tempo eu tinha condi\u00e7\u00f5es de me aventurar e bancar as despesas.<\/p>\n<p><strong>Recebeu muito apoio da comunidade judo\u00edsta?<\/strong><\/p>\n<p>Algumas pessoas me ajudaram muito, como o Renato Fruehwirth, na \u00e9poca em que era presidente da Federa\u00e7\u00e3o Paranaense de Jud\u00f4. A FPJ, ao contr\u00e1rio, nunca me ajudou em nada. O atual presidente me fez uma indelicadeza que jamais poderia esperar. Quando estava com o livro de ne-waza j\u00e1 adiantado, mostrei-lhe o conte\u00fado e disse que ficaria honrado se ele escrevesse o pref\u00e1cio. E ele me respondeu que o faria com muito prazer. Quando o livro estava bem adiantado, enviei-lhe um pen drive com o conte\u00fado, mas n\u00e3o tive resposta. Tempos depois o encontrei em Amparo e ele disse que estava muito ocupado, mas confirmou que faria o pref\u00e1cio. Mandei outro pen drive via Sedex, a secret\u00e1ria dele confirmou o recebimento, mas at\u00e9 hoje n\u00e3o tive retorno. Em contrapartida, \u00e0s vezes nos deparamos com pessoas que nos d\u00e3o uma aten\u00e7\u00e3o inesperada. Quando falei sobre um livro ao professor Ney Wilson, atual gestor do alto rendimento da CBF, e pedi que me ajudasse a localizar as pessoas que deveriam ser ouvidas l\u00e1 no Rio de Janeiro, ele me hospedou num hotel em frente \u00e0 federa\u00e7\u00e3o e conseguiu que as pessoas fossem at\u00e9 l\u00e1 falar comigo. Fui tr\u00eas vezes ao Rio fazer essas entrevistas. O Renato, o Chico do Jud\u00f4 e o Ney tamb\u00e9m me ajudaram quando precisei pagar um adiantamento para a editora, depois que o Gerardo Siciliano disse que o livro n\u00e3o interessava \u00e0 FPJ. Cada federa\u00e7\u00e3o que ajudou recebeu depois 40 exemplares.<\/p>\n<p><strong>O que o impele a seguir trilhando o caminho da literatura t\u00e9cnica e did\u00e1tica?<\/strong><\/p>\n<p>A aus\u00eancia de material para passar aos alunos que vir\u00e3o. O pouco de material que existe por a\u00ed \u00e9 muito mal feito e mal explicado. Minhas publica\u00e7\u00f5es t\u00eam tudo detalhado, fotografias com legendas numeradas, tudo certinho. H\u00e1 coisas da hist\u00f3ria muito interessantes nestes livros.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 poss\u00edvel comparar o jud\u00f4 atual com o de 50 anos atr\u00e1s?<\/strong><\/p>\n<p>O jud\u00f4 evoluiu muito. Para melhor, claro, porque naquele tempo os professores que vinham do Jap\u00e3o ainda tinham e ensinavam um pouco de t\u00e9cnica. O meu professor era formado aqui. O Massao Kodama que me desculpe a franqueza, mas ele n\u00e3o tinha conhecimento nenhum de jud\u00f4. Ele simplesmente largava o povo lutando. Naquela \u00e9poca ach\u00e1vamos que aquela luta dos japoneses matava \u2013 e n\u00e3o era nada disso. Nem kata existia. A evolu\u00e7\u00e3o veio gradativamente. Quem ensinou kata pela primeira vez no Brasil foi o Yoshio Kihara, que veio do Jap\u00e3o com a filha. Antes n\u00e3o existia nada, era tudo na for\u00e7a mesmo.<\/p>\n<p><strong>O que se perdeu de mais importante em todos esses anos?<\/strong><\/p>\n<p>A filosofia do jud\u00f4.<\/p>\n<p><strong>Qual foi o fato mais importante na hist\u00f3ria do jud\u00f4?<\/strong><\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o da Federa\u00e7\u00e3o Paulista de Jud\u00f4, indubitavelmente. Acho que a implanta\u00e7\u00e3o das federa\u00e7\u00f5es, primeiro a FPJ, em 1958, em 1962 a do Rio de Janeiro. Antes disso, por exemplo, aqui em S\u00e3o Paulo existiam n\u00facleos formados por fam\u00edlias como os irm\u00e3os Ono, os Ogawa e a turma do Tatsuo Okoshi que englobava as escolas dos senseis Tokuo Terazaki, Katsutoshi Naito, Seissetsu Fukaia e Sobei Tani. Foi muito dif\u00edcil unir todas estas escolas, na \u00e9poca, mas foi preciso para a evolu\u00e7\u00e3o do jud\u00f4.<\/p>\n<p><strong>\u201c<\/strong><strong>Sensei Motoyuki Murayama nos moldou e nos ensinou<\/strong><\/p>\n<p><strong>a fazer o que achava certo \u2013 e at\u00e9 hoje todos n\u00f3s concordamos<\/strong><\/p>\n<p><strong>que ele estava definitivamente certo.\u201d<\/strong><\/p>\n<p><strong>Qual foi a import\u00e2ncia da implanta\u00e7\u00e3o das delegacias regionais no desenvolvimento da modalidade?<\/strong><\/p>\n<p>Foi extraordin\u00e1ria, porque cada regi\u00e3o pode trabalhar e fazer o jud\u00f4 avan\u00e7ar sem depender tanto da FPJ. N\u00f3s, da 15\u00aa DRJ, quando ainda n\u00e3o t\u00ednhamos a delegacia aqui, depend\u00edamos da 8\u00aa DRJ e com isso o jud\u00f4 aqui era restrito, acanhado, massacrado, e tudo de que precis\u00e1vamos t\u00ednhamos de pedir para Rio Claro, onde vi coisas absurdas. Certa vez vi toda uma turma ser reprovada em exame, e pouco depois entraram no escrit\u00f3rio v\u00e1rias caixas de laranja e garraf\u00f5es de pinga e logo todos foram aprovados. Lembro que todos das turmas de Limeira e Piracicaba foram reprovados. Eu fiz o nage-no-kata com o Umeo Nakashima, e fui reprovado. Quando perguntei para o Oide por que havia sido reprovado, ele disse que eu pegava antes (eu era o tori) e eu neguei. Na verdade, me reprovou porque n\u00e3o foi com minha cara e pronto. E todos hav\u00edamos sido muito bem preparados pelo sensei Murayama.<\/p>\n<p><strong>As DRJs sempre tiveram for\u00e7a pol\u00edtica ou isso \u00e9 coisa recente?<\/strong><\/p>\n<p>O grande trunfo das delegacias regionais \u00e9 resgatar a import\u00e2ncia geopol\u00edtica da modalidade. Quando a 15\u00aa DRJ foi fundada, j\u00e1 t\u00ednhamos aqui a Uni\u00e3o Campineira de Jud\u00f4, com 33 associa\u00e7\u00f5es. Essa uni\u00e3o nos projetava politicamente no Estado e foi por meio dessa for\u00e7a que derrubamos o lobby do Mubarac e companhia na regi\u00e3o. Num acordo que envolveu o Hatiro, Jant\u00e1lia e o Tico, propusemos apoio ao Hatiro Ogawa, que venceu o Watanabe e honrou o trato, permitindo que fund\u00e1ssemos a 15\u00aa DRJ, que hoje \u00e9 a maior delegacia do Estado depois da capital. A Uni\u00e3o Campineira, que fundamos um ano antes da 15\u00aa DRJ, j\u00e1 dispunha de material para fazer os eventos, seis \u00e1reas de tatamis novos, seis \u00e1reas de seminovos. Fui delegado regional aqui de 1990 a 1995 e depois disso o Celso de Almeida Leite, que sempre foi uma pessoa muito capacitada, assumiu. Quando o indiquei para o cargo o Bahi foi contra, dizendo que ele nem era judoca. Eu argumentei que era o \u00fanico que tinha condi\u00e7\u00e3o, e a gest\u00e3o dele \u00e9 excelente at\u00e9 hoje; ele melhorou, organizou e fez a delegacia crescer. A \u00fanica m\u00e1goa que tenho \u00e9 que dois anos depois ele tirou toda a equipe que eu havia deixado, gente experiente e de muita responsabilidade, como os professores kodanshas Mercival Daminelli, Milton Trajano, Cl\u00e1udio Kyoshi Konno, N\u00e9lson Pedroso e eu.<\/p>\n<p><strong>Por que demorou tanto para se criar a 15\u00aa DGR, se o jud\u00f4 foi sempre t\u00e3o importante na regi\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Porque o Mubarac e o Watanabe n\u00e3o queriam de jeito nenhum. O que viabilizou a cria\u00e7\u00e3o da DRJ foi o acordo pol\u00edtico que firmamos. Caso contr\u00e1rio estar\u00edamos at\u00e9 hoje sob o jugo de terceiros.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 o maior respons\u00e1vel pela propaga\u00e7\u00e3o do jud\u00f4 na Grande Campinas?<\/strong><\/p>\n<p>O jud\u00f4 em Campinas teve tr\u00eas pernas. A primeira, Jos\u00e9 de Almeida Borges, pai do Odair Borges, que trouxe o sensei Shigueichi Yoshima para ensinar. S\u00f3 que ele mesmo nunca fez nada pelo jud\u00f4; a vida toda s\u00f3 fez por ele e pelo Odair. Sobre o sensei Yoshima, podemos cham\u00e1-lo de pai do jud\u00f4 de Campinas. A segunda perna foi o Sebasti\u00e3o Germano, que veio para c\u00e1 em 1966, comprou sua academia, teve os filhos que lutaram, e foi ele que introduziu o jud\u00f4 nos clubes. A terceira perna, quem realmente fez a difus\u00e3o do jud\u00f4 em Campinas e regi\u00e3o, foi o sensei Motoyuki Murayama. Nada sobrou dos dois primeiros, mas Murayama fez escola e ramificou nossa modalidade na regi\u00e3o. Cito como exemplos o Milton Trajano, que conhece e estuda as coisas do jud\u00f4, o Cl\u00e1udio Kioshi, que tamb\u00e9m tem uma academia, o An\u00edzio Belchior, o Mercival Daminelli, o N\u00e9lson Pedroso e eu. Somos seis professores graduados que continuamos formando judocas, seguindo e semeando os ensinamentos do sensei Murayama para centenas de alunos que est\u00e3o na estrada do jud\u00f4. Ele nos moldou e nos ensinou a fazer o que achava certo \u2013 e at\u00e9 hoje todos n\u00f3s concordamos que ele estava definitivamente certo.<\/p>\n<p><strong>Qual o judoca que mais o impressionou positivamente em todos esses anos?<\/strong><\/p>\n<p>No livro que ainda estou escrevendo cito tr\u00eas pessoas: meu professor Masahiko Murayama, a quem devo muito, pois foi um pai para mim; S\u00e9rgio Adib Bahi, com quem tinha grande sintonia, al\u00e9m da amizade; e Mateus Sugizaki, outra pessoa que sempre admirei e que faria originalmente o pref\u00e1cio do livro de ne-waza.<\/p>\n<p><strong>Qual foi o maior professor de jud\u00f4 na regi\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Indubitavelmente foi o sensei Motoyuki Murayama.<\/p>\n<p><strong>E no Estado de S\u00e3o Paulo?<\/strong><\/p>\n<p>Massao Shinohara. Se algu\u00e9m no Brasil merece o 10\u00ba grau, sem d\u00favida alguma \u00e9 ele.<\/p>\n<p><strong>E em nosso Pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<p>O professor kodansha Ryuzo Ogawa foi o grande percursor do jud\u00f4 no Estado e no Pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Qual foi o maior judoca que conheceu nestes anos?<\/strong><\/p>\n<p>Ainda fico com os dois que j\u00e1 citei anteriormente, S\u00e9rgio Adib Bahi e Mateus Sugizaki. S\u00e3o as duas pessoas que mais admirei por suas trajet\u00f3rias no jud\u00f4.<\/p>\n<p><strong>\u201c<\/strong><strong>O jud\u00f4 est\u00e1 espalhado pelo mundo e tem a fun\u00e7\u00e3o principal de mudar, educar e melhorar uma sociedade por meio dessa arte. \u00c9 nesse aspecto do jud\u00f4 que os professores t\u00eam de concentrar-se\u201d.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Qual foi o judoca mais t\u00e9cnico que conheceu?<\/strong><\/p>\n<p>Participei pouco de competi\u00e7\u00f5es, porque minha vida profissional n\u00e3o permitia. Mas, se for julgar pelo que ouvi a vida inteira, seria o Ricardo Kurachi. Dizem que ele n\u00e3o lutava: simplesmente bailava encima dos tatamis.<\/p>\n<p><strong>E o maior dirigente?<\/strong><\/p>\n<p>S\u00e9rgio Adib Bahi. Ele n\u00e3o olhou s\u00f3 o jud\u00f4 de forma local, ele trabalhou nas Am\u00e9ricas, ele levou meus livros para as Am\u00e9ricas. Quando morreu, estava a ponto de ser presidente da FIJ, porque seu prestigio em termos mundiais era excepcional. Era um dirigente honesto, trabalhador, competente, um empres\u00e1rio muito bem-sucedido. Era uma pessoa que vivia para o jud\u00f4 e n\u00e3o do jud\u00f4. Num dos meus livros escrevi o seguinte: Em 25 de julho de 1999 chegou a triste not\u00edcia, morreu S\u00e9rgio Adib Bahi, por\u00e9m pouco antes de sua morte, em entrevista que me concedeu para feitura deste livro e talvez j\u00e1 prevendo o desfecho final, fez quest\u00e3o de deixar esta mensagem para os jovens: \u201cO jud\u00f4 educa, \u00e9 o esporte por excel\u00eancia, o esporte da integra\u00e7\u00e3o de todos os valores positivos; foi miss\u00e3o das gera\u00e7\u00f5es passadas solidific\u00e1-lo, faz\u00ea-lo crescer, e essa miss\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m desta minha gera\u00e7\u00e3o e das gera\u00e7\u00f5es que vir\u00e3o. Desvincul\u00e1-lo do uso da for\u00e7a atrav\u00e9s da t\u00e9cnica e manter intacta sua filosofia nos d\u00e1 a certeza de que ele ser\u00e1 amanh\u00e3 o esporte do universo\u201d.<\/p>\n<p><strong>Em competi\u00e7\u00f5es, os judocas que v\u00eam de n\u00edvel sociocultural menor se saem melhor. Como v\u00ea esse fato?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que nas camadas mais pobres existe mais determina\u00e7\u00e3o e vontade de vencer na vida; por isso surgem grandes revela\u00e7\u00f5es, tanto no jud\u00f4 quanto em outras modalidades. Al\u00e9m disso, hoje algumas prefeituras est\u00e3o bancando o esporte, e o jud\u00f4 tem sido bem aceito. Em Atibaia, por exemplo, a prefeitura tem um projeto com mais de mil alunos. \u00c9 desses mananciais que saem grandes campe\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 preciso para dar maior impuls\u00e3o \u00e0 modalidade?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que se precisaria fazer mais justi\u00e7a. Tenho 63 anos de jud\u00f4, escrevi oito livros, tenho uma academia desde 1987 pagando filia\u00e7\u00e3o, e o que vejo na federa\u00e7\u00e3o? \u00c9 s\u00f3 unilateral. S\u00f3 fui promovido ao 6\u00ba grau porque meu professor Murayama insistiu muito, fez uma proposta e entregou para o sensei Nobuo Suga, que deu encaminhamento. Na \u00e9poca eu n\u00e3o tinha dinheiro, mas meus alunos se cotizaram e pagaram. Hoje, se eu quiser uma gradua\u00e7\u00e3o, tenho de pagar muito dinheiro. N\u00e3o tenho, mas mesmo que tivesse n\u00e3o pagaria. Um cara que gastou o que eu gastei para escrever grande parte da hist\u00f3ria do jud\u00f4 do Brasil, que dedicou o tempo que dediquei ao jud\u00f4, ainda ter de pagar? Sinceramente, \u00e9 um absurdo.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 o sonho que nutre em rela\u00e7\u00e3o ao jud\u00f4?<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 fiz o que tinha de fazer, n\u00e3o tenho mais condi\u00e7\u00f5es para nada. Este \u00e9 o \u00faltimo livro que vou escrever. Gostaria que meus alunos e minha academia continuassem depois que eu me for, porque amo isto aqui. Quero que meu neto continue. Quem d\u00e1 aulas aqui \u00e9 o Glauco, que \u00e9 uma pessoa excelente.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 a mensagem que deixa para os futuros judocas do Brasil?<\/strong><\/p>\n<p>O jud\u00f4 vale a pena. \u00c9 o esporte por excel\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>E qual \u00e9 mensagem que deixa para os professores de jud\u00f4?<\/strong><\/p>\n<p>Jigoro Kano queria fazer uma coisa grande para mudar o Jap\u00e3o. E ele conseguiu: o jud\u00f4 hoje est\u00e1 espalhado pelo mundo e tem a fun\u00e7\u00e3o principal de mudar, educar e melhorar uma sociedade por meio dessa arte. \u00c9 nesse aspecto do jud\u00f4 que os professores t\u00eam de concentrar-se.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"subtexto\" src=\"http:\/\/revistabudo.com.br\/imagens\/noticias\/2017_Marco\/Stanlei_Virgilio_2.jpg\" alt=\"Stanley Virg\u00edlio no escrit\u00f3rio de seu Doj\u00f4 na Vila Industrial em Campinas (SP)\" width=\"900\" height=\"656\" \/><span class=\"subtexto-texto\">Stanley Virg\u00edlio no escrit\u00f3rio de seu Doj\u00f4 na Vila Industrial em Campinas (SP)<\/p>\n<p>Por <strong>Por PAULO PINTO<\/strong> | Fotos <strong>BUDOPRESS<\/strong>Campinas &#8211; SP<br \/>\n<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Morre o professor kodansha Stanlei Virg\u00edlio, autor do maior acervo liter\u00e1rio sobre o jud\u00f4 brasileiro. Nascido em Rio Claro (SP), professor Stanley registrou a trajet\u00f3ria dos principais judocas de eixo Rio\/S\u00e3o Paulo Autor de oito livros sobre t\u00e9cnicas, biografias e hist\u00f3rias da modalidade, o ex-delegado regional da Federa\u00e7\u00e3o Paulista de Jud\u00f4, Stanlei Virg\u00edlio faleceu aos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":1923,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4,5],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/judonacional.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1922"}],"collection":[{"href":"http:\/\/judonacional.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/judonacional.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/judonacional.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/judonacional.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1922"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/judonacional.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1922\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1924,"href":"http:\/\/judonacional.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1922\/revisions\/1924"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/judonacional.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1923"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/judonacional.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1922"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/judonacional.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1922"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/judonacional.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1922"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}